A renovação carismática de R.R.


Rajon Rondo, armador do Boston Celtics, tem seu jeito.

Em quadra, fora dela... O tempo passa, os líderes do clube ficam velhos (Kevin Garnet – 35, Paul Pierce – 34, Ray Allen – 36) e Rondo também sente a idade chegando, mas são 26 primaveras de amadurecimento.

O alviverde tem uma carta para decidir seu futuro. Rondo, por mais que tenha uma notória representatividade no elenco, foi usado duas vezes como uma tentativa de moeda de troca (antes da temporada 2011-12 e no final da janela de transações). Como isso? Como o jogador é importante e o time quer se livrar dele?

Esta opção da franquia serviu para ver qual o valor do jogador. Foram oferecidas diversas trocas, mas nada digno de se livrar do armador titular.

Permanecendo em Boston, Rondo não sentiu um desprezo do clube, nem ligou pra isto. Numa análise típica, era pra mostrar um “corpo mole”. Só que mostrou disposição como se tivesse acertado um contrato vitalício.

Na semana final das transações, os Celtics estavam em excursão no Oeste dos Estados Unidos jogando contra os times da outra Conferência. Entres os dias 11 e 14 de Março, os adversários foram os Lakers, Clippers e Warriors e Rondo conseguiu, respectivamente, 10, 10 e 14 assistências. O dia final das transações foi de folga para o time, 15 de Março. Nada anunciado e a vida apresentou o próximo capítulo para Rondo: duelo contra os Kings no dia seguinte – 12 assistências.

À surdina, Rondo começava uma sequência histórica que na última terça, 17, completou 23 partidas seguidas com +10 assistências por jogo. Feito que criou perguntas como: “MVP?”.

Nem tanto. Contudo dá para ilustrar como é maravilhoso este momento de Rondo. Nesta linha de 23 jogos, foram 10 duplo-duplo (com +10 pontos) e dois triplo-duplo (com +10 pontos e +10 rebotes). Os seus companheiros brincam que Rondo gostar de brilhar quando tem luzes por perto, pois estes dois triplo-duplo foram em jogos televisionados nacionalmente para os EUA (via ABC).

Ele diz que não, mas quando o assunto surge, nas raras entrevistas que faz, gosta de citar um papo que teve com Pierce antes de um destes jogos que atraem uma grande audiência. O experiente ala provocou o camisa 9, mostrando que aquele era o momento de mostrar que é um armador de elite da NBA e que merece destaque.

Rondo fez isto – e faz. Gosta destas partidas especiais e de aparecer nos grandes confrontos.

Escutando Pierce é uma boa saída. R.R. atrai esta atenção dos membros mais experientes do clube e Kevin Garnett é considerado seu irmão mais velho. Nos tempos de Celtics, Shaquille O’Neal cuidava do jovem armador com tanto carinho que até o carregava no colo ao levá-lo para o vestiário.

Rondo, com isto, absorve o que pode para se tronar um líder. Ainda falta muito. Em quadra, mesmo rodeado por três “hall da fama”, quem dita o jogo é ele. Todo o elenco confia em sua visão de jogo para amar o ataque da melhor e mais eficiente forma possível. Porém ele ainda é emotivo,  uma característica importante nos carismáticos, embora é preciso canalizá-la bem para não afetar outros aspectos.


O’Neal, por exemplo, expôs uma fragilidade de Rondo no seu mais recente livro “Shaq Uncut: My Story”, lançado em Novembro do ano passado. Lá, O’Neal relata um encontro casual que os Celtics tiveram com o presidente dos EUA, Barack Obama. Ao apertar a mão de Rondo, Obama disse para Allen: “Ray, é bom você ensinar este garoto a arremessar”. Todos riram, mas Garnett, que conhece Rondo como poucos, viu que R.R. sentiu a “cornetagem” do presidente Obama – e Shaquille O’Neal  enfatiza isto na história contada, apontando que não foi qualquer um que o criticou, mas o presidente dos EUA.

Nos jogos após o encontro, Shaq disse que Rondo “encurtou o braço”, ou seja, passou a ser menos agressivo, a errar mais arremessos... Então entrou os mais experientes para acalmá-lo e tranquilizar o armador para não se preocupar de mais com a brincadeira que teve um fundo de verdade – na atual temporada, o aproveitamento de arremessos de Rondo (44,8%) só é melhor na carreira do que sua temporada de novato, 2006-07 (41.8%).

Mostra um pouco de volatilidade, mas pelo menos não esconde o que sente e mostra ser bem verdadeiro. Problemas com a confederação americana o fez desistir de participar do Mundial de Basquete da Turquia em 2010. A gota d’água, para ele, foi não jogar um amistoso, por decisão da comissão técnica, e ser o terceiro armador da seleção atrás de Derrick Rose e Russell Westbrook. Um corte precisava ser feito mesmo e Rondo se antecipou. Os EUA ganharam a competição, com Rondo se importando pouco com isto.

Hoje, ao menos para mim, ele é o melhor armador da NBA (faz parte do meu time ideal desta temporada). Ao ser perguntado se quer ir para Londres e participar dos jogos olímpicos, Rondo foi direto: “Não quero ir, porque só penso no meu clube. Gosto de aproveitar o verão” (obs: no hemisfério norte, no meio do ano a estação climática é o verão).

R.R. age com autenticidade e isto o molda como um ser único. Pode não agradar a muitos suas atitudes e nem tomar as melhores decisões quando é cobrado. Mas, dentro do elenco tem seu espaço de liderança. Basta ver como os mega astros Garnett, Allen e Pierce ouvem seu armador e respeitam sua direção com a bola laranja (quicando bem alto) sob suas mãos.

A diretoria dos Celtics, representada na pessoa de Danny Ainge, presidente das Operações de Basquete da franquia, quis negociar Rondo. Bom que não se concretizou. Que percebam R.R. como a renovação do clube, o comandante do alviverde em temporadas futuras.

Tem energia, eficácia e valia (afirmada nas recentes atuações).

Tem uma graça especial.


 (GL)
Escrito por João da Paz

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